• Lygia Canelas

Resenha de Como escrevo?

Organizado pelo também bibliotecário José Domingos de Brito, a obra “Como escrevo?” é uma coletânea de depoimentos de diversos escritores, que contam como é o processo da criação literária.


Os depoimentos não ultrapassam uma folha cada um e trazem a bibliografia dos escritores selecionados.

"Como nos documentários de cinema, muito do que os personagens não-fictícios […] declaram tem no fundo certos traços de ficção, algo de representação teatral diante das câmeras”.

No entanto, apesar dessa reverência exagerada que possa aparecer nos depoimentos, os escritores acabam por exporem o que pensam e para os seus grandes admiradores, esse livro é um presente inestimável.


Qual amante da literatura nunca imaginou seu autor favorito em um cenário criado em sua própria imaginação e tentou simular como seria o momento exato em que ele criou aquela frase insanamente perfeita que você acaba de ler? O que ele pensava? O que ele observava? A frase lhe veio pronta?


Bem, confesso que ao ler este livro procurei primeiro ler os autores que eu mais gostava, depois li o livro inteiro, do início ao fim e me apaixonei por escritores que nunca havia lido. E também… me decepcionei com alguns.


Lembro que quando eu tinha 8 ou 9 anos fui ao Circo com minha madrinha e ao final eu estava apaixonada por um dos palhaços. Eu quis ficar até o final do espetáculo e procurar por ele nas “coxias” para lhe dar um abraço, olhar em seus olhos, estar um pouco mais de tempo em sua presença.


Mas, ao chegar nesse momento tão esperado encontrei um ator fumando um cigarro, sem peruca, com sua maquiagem borrada pelo suor ou por ter começado a limpeza ao final do espetáculo...O palhaço, o personagem, aquela voz diferente, existia apenas no palco. A pessoa era ela, oras. Cada um é do jeito que é.


No palco, aquele ator era um ser iluminado que me levava para uma viagem maravilhosa, de euforia, de possibilidades, de inspiração. Fora dali não me dizia mais respeito.


Bem, não é bem assim... Acontece que passei a admirar alguns escritores que eu não lia tanto assim, e acredito que saber mais sobre o processo de criação de cada um, no que acreditavam, no que defendiam e a forma como trataram um jornalista ao responder a pergunta, fez toda a diferença para que eu tivesse um novo filtro acerca das obras literárias de cada um também.


Lançado pela Novera Editora em 2006, “Como escrevo?” faz parte da coleção Mistérios da Criação Literária. Os outros títulos dessa coleção são:


  • Por que escrevo?

  • Como escrevo?

  • Literatura e jornalismo

  • Literatura e Cinema

  • Literatura e política e Literatura e música.


Um dos detalhes mais legais dessa edição é que para facilitar a leitura o leitor pode recorrer ao índice de escritores inserido na orelha da quarta capa (ou segunda orelha). Uma forma muito inteligente de aproveitamento do espaço.


Foto da última capa contendo índice de escritores. Fonte: a autora.
Foto da última capa contendo índice de escritores. Fonte: a autora.

Aliás, a história sobre a invenção desse tipo de índice de consulta simultânea e essa localização específica no verso da orelha também está no livro. O inventor foi o próprio José Domingos de Brito (Organizador) em parceria com Gilberto Monteiro Lehfeld.


Foto do sumário do livro. Fonte: a autora.

A segunda parte do livro é também um segundo presente, diversos textos comentados de Rilke, José de Alencar, Massaud Moisés, entre outros, sobre o ofício da escrita.



Eu li e recomendo!


Vou deixar aqui um gostinho para vocês leitores de alguns dos depoimentos da primeira parte do livro que mais me chamaram a atenção.


─═☆☆═─

Gabriel Garcia Marquez: “[…] Uma das coisas mais difíceis é o primeiro parágrafo. Posso gastar muitos meses em um primeiro parágrafo, mas, quando eu o consigo, o resto vem com muita facilidade. No primeiro parágrafo você resolve a maior parte dos problemas do livro. O tema está definido, o estilo, o tom […]”


─═☆☆═─


Lezama Lima: “[…] Faça todos os dias um pouquinho, mas não se mortifique, não enfastie os seus melhores amigos com esses pouquinhos, não os leia por telefone às pobres pessoas que o acompanham na vida, não se exceda. Não seja um tormento para os pobres seres que o acompanham […]


─═☆☆═─


Lygia Fagundes Telles: “Escrevo de uma vez. Quando vem, sai assim encachoeiradamente, com muita paixão. Depois deixo dormir, deixo amadurecer como um fruto amadurece.”


─═☆☆═─


Manoel de Barros: “Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo lugar de ser inútil. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia”.


─═☆☆═─


Umberto Eco: “Geralmente, basta copiar palavra por palavra um bom romance já escrito. É a receita mais segura. Todas as outras respostas para essa questão são ainda mais polêmicas”.


─═☆☆═─


Raquel de Queiroz: “Detesto escrever. Não me lembro de escrever voluntariamente nada. O romance não é voluntário. É uma jornada que você inicia e que não se pode deixar no meio do caminho. Morro de preguiça.[…]”


─═☆☆═─


Vou deixar aqui uma dica, o texto mais lindo que já vi sobre como escrever foi do Mário Quintana. Só lendo mesmo para saber do que estou falando…

♥‿♥


Título: Como escrevo?

Organizador: José Domingos de Brito

Editora: Novera

Ano de Publicação: 2006

Páginas: 231



Gostou? Dá um like lá no final do post e compartilhe!


Talvez você queira ler "Os cem menores contos do século".



3 visualizações0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo