De Picasso ao labirinto da web

Atualizado: há um dia


Pablo Picasso – Little Horse, 1924.


Aqui está Caballo – de Picasso – um desenho realizado sem a interrupção da linha inicial.


Se pensarmos em um labirinto, teremos a mesma ideia do desenho acima, um caminho traçaco a partir de uma linha que segue sem interrupção até encontrar a saída.


Você pode recuar, errar, voltar o mesmo caminho sem perceber, pode encontrar pistas no meio do percurso ou não, terá que seguir a sua intuição, terá que arriscar… Na web também…



Afinal, como é que se inicia uma busca por uma informação na web?


Percorrendo dados entre as páginas é comum “se perder” pelo caminho (qual caminho, aliás?). Esse percurso cria uma trajetória, uma espécie de desenho único, uma experiência.


Ainda que duas pessoas diferentes procuram por um mesmo termo em um buscador como o Google, por exemplo, ainda assim a experiência será diferente pois os resultados obtidos seguem lógicas baseadas em:


  1. Metatags: informações inseridas no cabeçalho de sites e blogs, imagens e links. Elas servem para indicar qual é o conteúdo daquela página e facilitar sua recuperação em uma busca online.

  2. Identificação: dos hábitos e intenção dos usuários a partir das buscas e cliques anteriores, dados registrados que oferecem conteúdos mais relevantes a esse usuário.


Ou seja, em dois computadores diferentes, duas pessoas diferentes buscando pela mesma informação, o que vai acontecer? Uma lista de resultados diferentes oferecidas pelo mesmo buscador. Faça o teste você mesmo.


Quem seriam as deusas Ariadnes que nos auxiliam com um fio para que possamos encontrar o caminho de volta? No mito grego de Ariadne, filha de Minos (Rei de Creta), Ariadne apaixona-se por Teseu. Ele decide enfrentar o monstro Minotauro, guardião de um labirinto: a única saída era a morte ao ser devorado pelo monstro.


No entanto, o Oráculo de Delfos adverte nosso protagonista, ele terá sucesso em sua viagem pois será ajudado pelo amor.



O fio de Ariadne


“Ariadne, a filha do rei Minos, lhe disse que o ajudaria se este a levasse a Atenas para que ela se casasse com ele. Teseu reconheceu aí a única chance de vitória e aceitou. Ariadne, então, deu-lhe uma espada e um novelo de linha (Fio de Ariadne), para que ele pudesse achar o caminho de volta, do qual ficaria segurando uma das pontas.


Teseu saiu vitorioso e partiu de volta à sua terra com Ariadne, embora o amor dele para com ela não fosse o mesmo que o dela por ele”.



A web como labirinto e suas pistas


A professora em Tecnologias da Inteligência e Design Digital e artista plástica brasileira Lúcia Leão, descreve em seu livro O labirinto da hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço que “O fio de Ariadne não é só um instrumento para não se perder e poder retornar.


Ele é também o instrumento com o qual o viajante consegue avançar. Pois os corredores que ainda não foram explorados não têm o fio, enquanto que aqueles que já foram visitados têm a marca do fio. Os browsers, de uma forma geral, recuperam essa marcação do fio de Ariadne ao marcar os sites já visitados”.


A autora continua exemplificando essa caraterística ao nos lembrar que ao clicar em um link o mesmo modifica de cor (torna-se roxo) o que nos indica que já foi clicado, isso nos ajuda a não clicar novamente no mesmo link/caminho por engano. Sem esse recurso ficaria difícil saber o que já percorremos.


No entanto, Lúcia reconhece dois tipos de percursos: o percurso da Ariadne louca e o da Ariadne sábia. A louca é aquela em que se é livre para descobrir novos caminhos, sem precisar do fio, sem precisar de uma lógica única, é um mundo de possibilidades em que se pode mudar o trajeto a qualquer momento.


A sábia é aquela que presta atenção no caminho que está sendo percorrido para não perder-se, mantendo a concentração e não se permitindo mudar o trajeto para explorar novas ideias ou estímulos.


Quando iniciamos uma pesquisa online nos deparamos com estímulos diversos, e normalmente mantemos várias janelas abertas, músicas, e-mails, redes sociais, notícias… E é fácil perder-se do objetivo final, mas como dizia Clarice Lispector “Perder-se também é caminho”. Ou ainda…

“Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar”. Antonio Machado

Ariadne sábia inibe o processo de pesquisa e casualidade que ocorre em situação idêntica a uma visita a biblioteca. Você pode querer ficar solto pelas estantes e explorar à vontade, e de repente ser remetido para outros assuntos, autores e o que mais a casualidade permitir.


Por outro lado você também pode entrar em uma biblioteca e dizer o que quer e esperar por uma resposta objetiva, rápida e correta. Essa última seria um bom exemplo da teoria da Ariadne sábia.


Mas, a web não é grande demais para permitir-se perder-se por ai à vontade? Temos tempo para isso?



Os buscadores


Veja onde está o Google… Ele não está lá na superfície por acaso, na verdade, segundo Ladislau Freitas, a partir de uma pesquisa sobre um estudo feito pela Universidade da Califórnia no ano de 2001, a estimativa é “que toda a Internet apresentada pelos mecanismos de busca corresponde a bem menos de 1% do tamanho real”.


Em uma conversa com o artista e webativista Hernani Dimantas, ele fala um pouco mais sobre os 99% da web e onde ela está, porque não temos acesso a ela. 


A Deep Web (ou Dark Net, Free Web, Invisible Web, entre outros termos semelhantes) é um território pouco explorado, mas ele está lá, ele pode ser acessado. Lá estão a web livre, os torrents, o protocolo IRC para comunicação na web e usado para chats e troca de arquivos, o mundo dos hackers…


Imaginem uma imensa livraria, há pessoas que se contentam em parar nas primeiras bancas com os best-sellers, e há aqueles que sabem onde ir, ou que ao menos exploram as prateleiras ao fundo, e há sempre um funcionário que poderá orientar você.


Hernani nos diz que a Deep Web é onde estão as networks, e lá não é preciso orientação, uma liderança que indique o caminho, lá é um campo aberto para exploradores que buscam novas ferramentas e compartilham seus conhecimentos.“As pessoas têm aquilo que elas merecem”.


A maioria das pessoas não sabe como pesquisar, nesse caso estamos falando especificamente dos buscadores na web, mas a lógica da busca e das palavras-chave se aplica a todo o tipo de pesquisa. Até mesmo em uma biblioteca física.



Se a resposta a uma pesquisa está errada é necessário mudar a pergunta


Bibliotecários sempre trazem essa questão à mesa quando tratam sobre como os alunos (de qualquer nível, ensino fundamental, médio ou universitário) iniciam uma pesquisa na biblioteca. Já perguntam qual é o livro que possui tal assunto, e com o livro na mão, muitas vezes não se dão ao trabalho de olhar o índice ou o sumário. Como mágica, muitos deles abrem a obra pelo meio esperando que a informação dê uma piscadinha de olhos e grite: estou aqui!


Será que sabemos como estudar? Pesquisar?


Essa inabilidade para pesquisar é um prato cheio para que os search engines possam aplicar suas lógicas baseadas em um grupo líder nos resultados, baseados no que já tratamos acima: metatags e estudos sobre o comportamento do usuário conectado baseado na intenção do marketing, muitas vezes.


Hernani completa dizendo: “As pessoas têm aquilo que elas merecem”. As ferramentas estão à disposição, basta querer, basta explorar, dedicar-se e querer aprender, desenvolver a curiosidade e desacostumar-se a receber tudo pronto. Precisamos nos desvencilhar do pensamento de que se algo não está no Google, então não deve existir.


Estamos acostumados a ter um líder, alguém ou algo que nos aponte as referências, mas a experiência do aprendizado, do compartilhamento e da produção de conhecimento exige de nós um novo comportamento: a ousadia, a autonomia, assumir a corresponsabilidade por buscar e disseminar.


*Conteúdo publicado originalmente pela autora no Projeto Inovaeduca.


Leia também A arquitetura da informação em papel?





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