• Lygia Canelas

A arquitetura da informação em papel?

Atualizado: Fev 20

Imagine ler um livro ou navegar por um site sem sinalização alguma? Imaginou um mundo na web sem o botão “voltar”? Livros sem sumários? Mas como a navegação pela informação evoluiu para tornar a nossa vida mais simples?


Você sabia que na idade média os textos eram escritos de forma contínua, ou seja, as palavras não possuíam um espaço que as separasse em uma frase. Sim, as palavras eram escritas todas juntinhas. o_O Pois é…


Da mesma forma não havia pontuação nem a ideia de letras maiúsculas ou minúsculas. Antes do papel impresso, a escrita dos livros era realizada à mão, um por um, por copistas. As regras gramaticais praticamente inexistiam.


O parágrafo era um recurso oral que não tinha esse nome, tratava-se apenas de uma pausa silenciosa conferida ao texto enquanto ele fosse “falado ou lido em voz alta”.

Imagine a dificuldade para uma leitura mais rápida ou para identificar intenções e emoções do texto, que revelam a expressão do autor. O costume ocidental de ler da esquerda para a direita nem sempre foi um padrão.


Em épocas diferentes e em locais diferentes eram estabelecidos padrões de leitura distintos, alguns escritos eram lidos da direita para a esquerda (como exemplo, o hebreu e o árabe), outros de cima para baixo (chinês e japonês) e ainda outros eram estruturados e lidos por meio de colunas verticais, como faziam os maias.


Já os astecas criaram a forma mais criativa de leitura, dispondo o texto como trilha em um “mapa” com algumas indicações de direção que utilizaram pontos ou linhas. Como o agrupamento de sentido se dava? Como encontrar algo rapidamente em um texto nesse formato?


Aos poucos as palavras passaram a ser escritas de forma separada (por um espaço em branco) e as primeiras pontuações foram surgindo como pequenas rubricas às margens dos textos.


O texto vai ganhando características visuais e a informação vai se ordenando de forma a preservar o sentido de cada entonação, significado sentimento atribuído por seu autor. Diante de um ambiente digital informacional tão vasto, dinâmico e glocalizado (global e local ao mesmo tempo), como é a web, fica mais simples de entender porque é tão intuitivo reconhecer uma interface bem construída cuja “leitura e navegação” estão estruturadas em caminhos reconhecíveis por praticamente toda a comunidade virtual.


Há! Você nunca deu tanto valor para a vírgula, como agora, não?!



A virtualização


A rápida revolução nas tecnologias de telecomunicações provocou um movimento mundial chamado “virtualização” que afetou diretamente a comunicação e determinantemente influenciou a vida social de maneira jamais imaginada, senão por poucos visionários. O surgimento do computador pessoal permitiu uma evolução do seu sistema de forma que pudesse atender as necessidades de profissionais, organizações das áreas de editoração, games, cinema, telecomunicação e televisão, a partir de recursos como planilhas e editores de texto, imagem e música.


O conceito de multimídia aparece nos anos 80, trazendo consigo termos como digitalização, interface sensório-motora, hiperdocumentos, hipertextos, mensagens interativas. Dessa forma, as tecnologias digitais tornaram-se cada vez mais parte do cotidiano social e profissional de milhares de pessoas, consolidando a infraestrutura do ciberespaço como um novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas também como um novo mercado da informação e do conhecimento. (Levy, 1999, p. 32). 


Navegar pela web é viver a experiência de habitar simultaneamente o mundo real e o ciberespaço. 


Ascott nos fala da emergência de uma nova faculdade, ao mesmo tempo humana e pós-biológica, a “ciberpercepção” (cyberception). Esta faculdade envolve a capacidade de perceber e habitar o ciberespaço.
(Roy Ascott, apud LEÃO 2005, p. 109). 

Dessa forma as relações humanas dispõem da intermediação de mecanismos para a virtualização das ações.


Por não depender de um ponto central, a internet possui um caráter de geração espontânea e que não segue padrões hierárquicos. Suas conexões se formam e se transformam o tempo todo. A arquitetura da Web está configurada por  meio de complexas teias de informações interligadas. Para conectar os diversos pontos de conexões a rede utiliza a tecnologia do hipertexto.


Em outras palavras, cada ponto da rede que pode ser um site, por exemplo, possui em si próprio a capacidade de se intercomunicar com todos os outros pontos da rede. Esses pontos permitem alcançar outros pontos e funcionam como portas que levam à novas portas.


É dessa maneira que a navegação hipermidiática pressupõe uma experiência labiríntica. Esses caminhos complexos podem ser representados pela metáfora visível na obra de Escher “Relatividade” (Litografia), abaixo.

Escher_Litografia_Relatividade_1953
M.C. Escher_Litografia_Relatividade_1953


A Web assume o papel de uma tela em branco para que qualquer conteúdo possa ser criado e exibido, desde que na linguagem codificada para o meio digital. Novas posturas, gestos e novas palavras foram incorporados ao dia a dia dos internautas a partir de um reforço cotidiano de processos e ações que tornaram-se bastante comuns no trabalho, no estudo e na experiência social.


Toda a estrutura de comunicação na Cibercultura obedece ao padrão rizomático da rede e passou a ser intermediada por uma interface web construída a partir de princípios do hipertexto e facilmente manuseada pelo clicar do mouse, outra invenção fundamental que auxiliou o crescimento vertiginoso da internet.


A navegação passa a dispor de recursos como botões clicáveis, links e rolagem da tela. Caminhos diversos podem ser trilhados, a partir dos links, ou seja, palavras destacadas no conteúdo exibido que permitem a interligação direta com um ponto específico. As páginas web são compostas por diversos pontos de hiperlinks que formam menus de opções, sites, botões para ações diversas.


A lexia passa a se desmaterializar da forma convencional e se afasta do movimento natural e contínuo da leitura. (LEÃO, 2005, p. 29).

Essa estrutura fragmentada do texto alcançou a construção de todo tipo de objeto digital que pretenda comunicar algo. Pela falta de tempo e diante de uma avalanche informacional, as informações passaram a ser transmitidas e anunciadas em pequenos trechos (chamadas hoje de pílulas ou episódios), contendo em si mesmos um começo-meio-fim, além de emprestar espaço para conteúdos que substituem facilmente a comunicação textual, como imagens e vídeos.


Chartier (1997) reflete que a escrita na internet carrega ainda os vestígios do seu formato anterior (impresso ou manuscrito), mesmo que tenha provocado novas concepções. A partir da herança também de elementos da oralidade, a escrita no meio cibernético pode ser considerada heterogênea quando pensada pelo aspecto de sua construção. O texto falado ou escrito, ou seja, as culturas oral ou letrada, não são opostas. Na cibercultura essas categorias se conversam e complementam uma à outra, em um novo suporte linguístico.


Ao observar a evolução dos suportes da escrita desde o seu nascimento até os dias atuais, é visível que a evolução do suporte permitiu maior autonomia do leitor e maior integração entre a oralidade e a escrita. No início o texto era gravado em pergaminhos feitos de papiro, em faixas longas que eram enroladas em si mesmas.


Para ler, o leitor segurança as extremidades e desenrolava verticalmente ou horizontalmente o pergaminho, à medida que ia avançando na leitura. Esse suporte não permitia ao leitor a leitura e a escrita de maneira simultânea e apenas com o aparecimento do códex, é que isso tornou-se possível.


O codex era estruturado por meio de conjuntos de folhas dobradas formando cadernos que podiam ser organizados e costurados juntos, até formarem uma única unidade.



A experiência do usuário que lê em telas


A partir desse novo contexto de interação com conteúdos cibernéticos, são estabelecidos novos tipos de abordagens e técnicas para leitura, escrita, interatividade e novos padrões de pensamento e cognição.


O conteúdo hipertextual é veiculado na web em diferentes formatos de tela, pois podem ser acessados também por meio dos browsers em dispositivos móveis (smartphones ou tablets), além de “aplicativos”, que nada mais são do que aplicações que funcionam como microsites (que podem funcionar tanto em modo online quanto offline), projetados para uma navegação mais fechada, em um ambiente ou canal único que proporciona todas as informações e recursos necessários para atingir seu objetivo proposto.


Como exemplo temos aplicativos para cursos de idiomas, ou para acesso aos serviços de um banco, outros ainda para a leitura de jornais, revistas ou livros, entre tantas opções.


Parede cheia de postits e desenhos feitos a mão sobre processos e layouts de aplicativos e telas web. Duas mãos aparecem escrevendo sobre o quadro.

O dinamismo no acesso e a possibilidade de navegação por links favoreceu a construção de textos menores e mais objetivos. A leitura em uma tela de computador possui atributos físicos intrínsecos à tecnologia que promovem um stress visual característicos principalmente pela exposição à luz.


Textos reduzidos com maior participação de imagens, vídeos e padrão de uma trilha multi-linear e multisequencial da leitura, encorajam um conjunto de atributos principais que acabam por definir a disposição de texto e conteúdo nos sites e aplicações para a web, atualmente. Sites e aplicativos seguem esses atributos em suas construções de conteúdo a fim de reforçarem um padrão confortável para o consumo por parte dos usuários.


“Hoje, uma boa interface de ambiente digital é reconhecida por seus elementos comuns a toda comunidade digital (a tal da “intuitividade”), qualidade gráfica e por uma boa parametrização da ferramenta de busca”.

Tecnologias e ambientes distintos disponibilizam diferentes conteúdos de maneiras específicas, buscando pela melhor forma de aproveitamento das informações e dos recursos exibidos, uma vez que o foco está sempre na experiência do usuário. Três perguntas devem ser feitas para que a navegação possa ocorrer de forma fluida sem aprisionar o internauta em becos sem saída, nem em loopings infinitos que retornem sem nenhum proveito:

– Onde estou? – De onde vim? – Pra onde vou?

Todas as mudanças de comportamento das pessoas diante do uso de interfaces e dispositivos digitais, permitiu o estudo e o aprimoramento das melhores práticas para estruturar e disponibilizar informações e recursos, focando em uma experiência positiva e intuitiva. A Arquitetura da Informação está intimamente relacionada à experiência da navegação e tem como objetivo auxiliar na estruturação de uma lógica que permita a encontrabilidade das informações a partir de um público e contexto específicos.


Rosenfeld e Morville (1998) descrevem muito bem a analogia entre a arquitetura de edifícios e da informação quando dizem que o todo é mais importante do que a soma de suas partes.

Quando esses detalhes são negligenciados a experiência de navegação e busca por informações acaba sendo frustrante e levando à desistência da jornada. Hoje, uma boa interface de ambiente digital é reconhecida por seus elementos comuns a toda comunidade digital (a tal da “intuitividade”), qualidade gráfica e por uma boa parametrização da ferramenta de busca.


Desde sempre a informação precisou ser disposta de alguma maneira e para que o leitor possa se apropriar dela, aplicá-la e retornar a ela quando desejar, é que elementos diversos foram surgindo e evoluindo para melhor dispor a informação em diversos suportes.


E é aqui, nesse ponto, que a Arquitetura da Informação dá as mãos à Biblioteconomia e juntas continuam seus estudos aprofundando-se cada vez mais em questões que abraçam o design de interação e a experiência do usuário sempre com a missão de compreender a necessidade do público e tornar mais simples a sua vida em algum aspecto, entendendo de perto quem é e o que pretende dentro de cada contexto de espaços informacionais.


Algumas referências interessantes sobre o assunto


BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento II: da enciclopédia a Wikipédia. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.


CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: a era da informação: economia, sociedade e cultura. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.


CHARTIER, R. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora UNESP, 2007.


LEÃO, Lucia. O labirinto da hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço. 3 ed. São Paulo: Editora Iluminuras, 2005.


LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.


MANGUEL, Alberto. Os leitores silenciosos. In: Uma história da leitura. São Paulo: Cia das Letras, 2001.


Talvez você goste também: "De Picasso ao labirinto da web".

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